Habitación en Roma ♪♪ Volare, ohhh, cantare, ohhh…♪♪

Licença para uma narrativa menos linear ainda do que costumam ler por aqui, não existe como passar a essência deste filme se não for numa narrativa freak, meio desconexa ^^

Como este filme agrada aos meus ouvidos. Não que os meus olhos tenham ficado insatisfeitos, mas os meus ouvidos extasiaram com este filme! Tudo em Habitación em Roma (Quarto em Roma) soa muito bonito, a trilha sonora é uma verdadeira obra de arte, composta por óperas gregas, italianas e espanholas, além de clássicos populares da Itália como cançonetas e Volare, e o rock blues americano que contempla as cenas finais? É de extremo bom gosto, tudo isso somado a todo o charme e beleza da língua russa não poderia dá em outra coisa além de um maravilhoso orgasmo auditivo ^^

Tudo, exatamente tudo me agradou neste filme europeu estrelado pela espanhola Elena Anaya (efervescente como a maioria das espanholas) e pela russa Natasha Yarovenko (Linda, loira e alta como a maioria das russas ^^). Alba e Natasha são duas desconhecidas em Roma que se conhecem em um bar, se atraem e acabam indo para o hotel de Alba, lésbica convicta e predadora que acaba conseguindo convencer a hetero e excêntrica russa a abrir a guarda para ela. Não sabemos nada das personagens tal como elas não sabem nada uma da outra também, esse é um elemento que funciona muito bem durante todo o filme, isso nos aproxima das personagens tanto que não é raro você se sentir dentro do quarto com elas algumas vezes🙂.

Elas se beijam, ainda com uma certa relutância de Natasha e nessa introdução do filme, se pode pescar a primeira verdade da russinha: (é assim que Alba a chama ^^) ela aprisiona alguém narcisista e bipolar por baixo da sua aparência tranquila. Em um segundo ela reluta em beijar Alba e no segundo seguinte pergunta se Alba gostaria de vê-la nua (Russa bobinha, imagina se não rs). Alba a despi, se despi também, e como Natasha parece assustada, Alba diz a ela que ficaram apenas deitadas, bem próximas, até que Natasha relaxe. Mas quem acaba relaxando é Alba, que dorme e Natasha foge, revelando outro traço engraçado que é o fato dela falar com ela mesma. Algum tempo depois, Alba acorda com o som de um celular que não é seu, que aliás, está todo em russo e em seguida escuta alguém bater na porta, e surpresa! Sua russa voltou para pegar o celular esquecido e dessa vez, Alba não a deixa escapar. Ela puxa Natasha de volta para o quarto, mostrando a ela um mapa da histórica Roma revelando que o lugar no qual estão nada mais é que o Teatro de Pompeu, repleto de pinturas renascentistas que de certa forma, contarão a história delas uma para a outra, e com o encantamento de Natasha ao se dar conta de onde está, ela nos dá outra pista sobre quem ela é, ela gosta de história da arte. E adora o orgasmo que ganha de Alba logo em seguida, o filme contempla nossos olhos com uma tórrida cena de sexo e nossos ouvidos com as reações de Natasha, seus gemidos maiúsculos e suaves.

Do êxtase à frigidez, a primeira coisa que Natasha diz a Alba depois do sexo é que aquilo fica naquele quarto, entre elas, pois ela, tal como Alba também, tem uma vida que precisa proteger, e Alba começa a dar pista sobre quem ela é. Conta uma história envolvendo uma xeique árabe, sua mãe e uma gravidez interrompida, a beleza nem está na história que ela conta, e sim em como é contada, Alba em uma cadeira observando Natasha nua na cama, atenta a suas palavras. É como uma pintura renascentista, aliás, tudo nesse filme traz referências renascentistas. Segundo a história contada por Alba, Alba não é seu nome verdadeiro e sim da sua filha, que teria este nome porque nasceria ao amanhecer, depois que o barco grego no qual estava fugindo do xeique aportasse em Atenas. Então Natasha se levanta e dá de cara com uma pintura da Ágora de Atenas na parede. Alba está mentindo. Ela ri e elas fazem um trato: nada de histórias, apenas devem dizer uma a outra aonde vivem, irão jogar em um programa de computador e logo terão uma ideia do ambiente em que vivem e assim de quem realmente são. E ai vem uma das cenas mais fofas do filme, Natasha diz o bairro aonde vive em Moscou, com todo aquele sotaque russo lindo e Alba se derrete sorrindo, elas trocam um olhar e sorrisos doces, é realmente fofo. Natasha é de Moscou, e quando Alba pergunta o que ela está fazendo em Roma ela diz que está fazendo um este para um casting, que ela é atriz. E então as duas vão ver aonde mora Alba. E acontece algo estranho, a foto no satélite é antiga, de dois anos atrás, e ela vê três cadeiras no terraço e um  menino. E cai no choro. Ela não diz porque, mas Natasha a consola, a toca, a beija e Alba revela “Você me dá medo, russinha”. E Natasha também revela que está tremendo de medo, que não se reconhece no que está fazendo. É óbvio que não. Habitación em Roma, apesar de todas as suas cenas de sexo – que não são poucas, na verdade, trata de amor. Existem dois tipos de amor no qual eu acredito, aquele que nasce dia após dia de convivência e aquele que nasce ardendo, rapidamente, da onde não se espera e consome tudo como em um grande incêndio, e é desse tipo de amor que o filme trata. Esse amor que a maioria não acredita que exista, amar alguém depois de algumas horas apenas? É racionalmente difícil de aceitar, mas sentimentalmente totalmente possível.

Uma cena engraçada é quando Natasha pede a Alba que ela use um vibrador nela, porque afinal ela gosta de homens. E Alba diz a ela que não usa essas coisas e que conhece muitas mulheres que depois de provarem de outra, nunca mais quiseram saber dos homens (Go Alba /), e ela faz uma brincadeira, liga para recepção e pede um vibrador ao atendente do hotel, que obviamente entende como um convite e sobe até o quarto delas, e meio que sem assunto, diz a Alba que naquela noite a Espanha ganhou na Itália no futebol. Ela diz que o futebol a entendia e ele pergunta se acontece o mesmo com a amiga dela. Ela diz que sim, que Natasha é uma tenista russa. E na mesma hora Natasha cai na risada, uma risada muito gostosa, rola pelo chão rindo e o atendente do hotel diz para Alba olhar o braço dela, um tem que ser mais musculoso que o outro, Alba vai para cima dela, rindo, tentando ver o braço dela e descobre que sim, o esquerdo é mais musculoso que o direito, que ela tem calos nas mãos e tudo, ela realmente é tenista! E as coisas ficam tensas, o atendente se aproveita, entra no quarto e quer brincar de acessório de sexo lésbico. E descobrimos mais uma coisa de Natasha, ela é tenista e fala italiano perfeitamente (tanto que começo a me pergunta se ela é russa mesmo, o que seria frustrante uma vez que assim como Alba, eu adoro a ideia dela ser russa) e se livra do atendente, que se desculpa, e sai cantarolando uma cançoneta italiana maravilhosa. O inesperado é outro elemento muito bacana do filme, e acontece quase que o tempo todo.

Começo a me dar conta que tudo em você me dá medo.

Teus olhos.

Tua boca.

Teu sorriso.

Teu jeito de falar.

O timbre da tua voz.

Teu cheiro, teu perfume, tua respiração…

Este corpaço, tua pele, tua pele é incrível…

E me dá mais medo a sua cor.

Tua pele é como uma estepe russa.

E isso sim me dá medo.

E no final deste monólogo maravilhoso de Alba sobre Natasha, ela a pergunta, que, se caso ela tivesse uma irmã gêmea com tudo isso igual, Alba sentiria o mesmo medo. Alba diz que talvez sim, talvez não e Natasha termina dizendo que se sente muito feliz em estar ali, com Alba, no lugar da sua irmã gêmea, que acaba de terminar sua tese sobre o Renascimento, que é formada em história da arte, faculdade que Natasha abandonou no terceiro ano para ser atriz, as duas fizeram um teste no qual só ela foi aprovada. Alba pergunta se existe alguma diferença entre elas, e Natasha diz que apenas uma: ela se tornou mulher antes que sua irmã, após a morte da sua mãe, quando as duas tinham treze anos o pai passou a toca-la, sem fazer nada mais, só a acariciava durante a noite. O que causou um grande complexo de inferioridade em sua irmã (difícil de entender, né? Alguém sentir complexo por não ter sido abusada pelo próprio pai, a Rússia tem dessas). Natasha se entristece, e Alba diz que ela pode chorar, que chorar faz bem, e Natasha diz que ela nunca chora. E Alba pede que ela chore como atriz. E ela não consegue, se levanta e diz que é uma atriz ruim. Há uma pintura de Cupido, o Deus do Amor sobre elas. E Natasha a devora em uma cena fervente de sexo oral.

E depois disso Alba conta a ela que não é espanhola de nascimento, e sim grega, e que a história envolvendo um xeique árabe é verdadeira, mas é de sua mãe. E Natasha também decide ser sincera, e conta que se casa no próximo domingo e que ela é a gêmea renascentista, com complexo de inferioridade. E Alba conta a ela o motivo de seu choro ao visualizar sua casa mais cedo. Ela é casada há dois anos, com uma mulher que possuía dois filhos, um menino e uma menina. O menino havia morrido há alguns meses, em um acidente domestico bobo, e só estavam ele e Alba em casa quando aconteceu. E desde então, a relação delas estava abalada e nunca mais Alba havia conseguido dormir sem beber nada, até naquela noite, na qual Natasha a acordou.

Vale a pena ressaltar a cena na qual Natasha canta Volare no chuveiro, que coisa linda ^^ Volare, sexo no chuveiro, despedida difícil. Amanhece, elas assistem juntas o sol nascendo, e Alba pede um café para elas, o maior possível, para que dure mais.

O filme ensaia um final feliz, e então as coisas ficam escuras, e tensas, e vermelhas e calmas de novo, o bom senso parece ter vencido. As duas se vestem, descem e, o final fica a seu gosto, eu considero feliz ^^

Um filme maravilhoso, inebriante, inteligente, um clássico europeu, diferente dos últimos decepcionantes filmes europeus que eu fui assistir achando que seriam grandes (Las películas de mi padre por exemplo). É um filme erótico, não pornográfico, e a diferença entre esses gêneros não é tão sútil como se pensa, as atrizes não usam roupa em 95% do filme e isso pouco se percebe, porque a história que permeia essa nudez é sagaz, densa, detalhadamente continuísta. Um dos melhores filmes temáticos que eu já assistir, recomendo demais;)

Ps: Sou só eu ou mais alguém ai teve insights de Neve Campbell e Rebecca Rominj-Stamos assistindo esse filme?🙂

 

 

8 comentários (+add yours?)

  1. vanessa
    Mar 12, 2011 @ 21:20:20

    Adorei esse filme e sua critica…
    Mas devo dizer que você falou que não ia ser linear, mas foi.. rs
    Mesmo assim sua escrita está sempre perfeita. Parabéns querida.

    Rebecca Rominj-Stamos: sim…
    Neve Campbell: só depois que você falou dela que percebi algo parecido.

    Responder

    • Jessica
      Mar 12, 2011 @ 22:27:25

      Rsrs
      Amiga, eu fui escrevendo, escrevendo e depois que fui ler, eu achei que tivesse misturando tudo, que quem fosse ler ia me achar meio insana, mas se você me diz que está bom, acredito em você🙂
      Quando eu vejo algo que me intoxica assim, eu fico meio sem classe como diz uma amiga minha, filme maravilhoso, tô inebriada até agora ^^

      Responder

  2. Ruana
    Jul 26, 2011 @ 20:02:17

    Esse filme é de uma -essencia- extremamente deliciosa, no meio dos tantos filmes com a temática lésbica, esse (meu momento achismo!) foi o que mais se aproximou da nossa realidade , tanto nos conflitos internos , quanto no sexo.

    E sobre a melodia… concordo plenamente com você: Um orgasmos ressoando dentro dos meus ouvidos!

    Responder

  3. Luciana Mai
    Out 25, 2013 @ 02:57:17

    Estava procurando críticas sobre este filme e me deparei com a sua, com a crítica deste blog. Até o momento a mais interessante e bem pontuada. Faz tempo que escreveu e, talvez isso se torne mais interessante. Realmente o filme encanta, enebria, seduz e nos carrega de uma forma estranha, como se fosse um limbo de sonhos e fantasias. Dá vontade de viver dentro do filme (quem sabe numa eternidade como voyeur); vontade de ser/ter um amor assim. O final dá uma tristeza na gente, não pelo seu desfecho propriamente, mas pelo nosso desfecho como voyeurs, afinal o tempo delas na estadia do quarto acaba, elas precisam partir. E, nós os espectadores, não temos outra saída, a não ser partir, mas partir sem elas. E para onde vamos?. Fiquei pensando que é um filme que retrata de uma maneira mt sensível o feminino, não o sexo entre mulheres ou a questão do lesbianismo, não se trata propriamente de ser ou não ser lésbica, mas de se sentir o amor, de se sentir mulher, justamente, tem um momento que elas se questionam sobre isso. As críticas que li na net sobre este filme e que foram analisadas por homens, achei mt curioso. Eles trataram o filme como pornografia e como uma péssima desenvoltura cinematográfica. É um filme para mulheres se descobrirem mulheres. Enfim, fiquei pensando e imaginando várias coisas, além de imaginar outras coisas. Fiz um escrito que encerrou minha graduação em psicologia sobre a lógica das paixões. Tivesse visto o filme anteriormente, poderia tê-lo usado como pano de fundo. Momentaneamente em lamento… Mt bom teu escrito e tua crítica. Copiei algumas coisas, além das imagens. Obrigada. Abraços.

    Responder

  4. Luciana Mai
    Out 25, 2013 @ 02:58:46

    *Inebria! (desculpa)

    Responder

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

"Every time a lesbian comes out, an angel gets her wings..." ^^

Contador de Visitas ^^

Contador de visitas
%d bloggers like this: